O Contador de Estrelas
07/01/2018 15:00 / 1,874 visualizações / 8 comentários

 

O Contador de Estrelas

 

“Nós somos os deuses que dominam o mundo;
Os criadores da vida;
Os arautos das selvas;
Os guardiões dos mortos... Esses são os caprichos dos deuses;”

 

 

Assim se ouvia as palavras do orador que perambulava pelas ruas de Meletis. 


Meletis, a grande cidade-estado, lar de pensadores progressistas, taumaturgos, sábios oráculos e berço da liberdade e democracia. Sim, como uma cidade tão voltada ao saber é dominada pela crença nos deuses e no misticismo?
 

Não me julgue mal, mas eu, como um bom Meletiano, já reverenciei os deuses. Mesmo nunca tendo visto ou presenciado aparição alguma deles, eu mantinha minha crença, porém, essa crença se diluiu quando minha esposa e filho foram massacrados por um ataque de fanáticos de Mogis. Estávamos realizando uma viagem com outros comerciantes, trazendo especiarias oriundas do grande Mercado de Abora – o mercado gigante, ao ar livre, dentro do portão principal de Setessa – quando nossa comitiva foi brutalmente atacada. 

 

Os mercenários que contratamos não foram páreos para a emboscada. No meio daquele caos e da babel de vozes, presencie minha esposa sendo brutalmente apunhalada na tentativa de proteger nosso filho. A fúria me tomou o coração e eu peguei a lança mais próxima e a lancei, atravessando o coração do bastardo. Mas, mesmo assim, não pude salvar minha família. Eu e mais alguns sobreviveram porque um grupo de guerreiros Setessanos chegou a tempo. Ao que parecia, eles estavam rastreando o bando de fanáticos há algum tempo.


A única coisa que eu via na minha frente era o corpo das duas pessoas que eu mais amava no mundo. Mas o que mais me revoltou não foi à morte, e sim a cena que se apareceu diante de mim. Ao meu redor, aqueles que sobreviveram se ajoelhavam e erguiam suas orações e mãos aos deuses agradecendo pela misericórdia estendida. Alguns choravam – de alegria ou medo – e jubilavam em comemorar a compaixão de Heliode. Como aquilo era manifestação de amor ou compaixão? Onde estava à poderosa Khrusor de Heliode para destruir nossos inimigos? 

 

 

Nenhum deus surgiu para lutar nossa luta. Nenhuma intervenção divina foi manifesta. Daquele dia em diante eu renuncie a todos os deuses.


Por que eu deveria render meu destino à outro ser que não fosse eu mesmo? Com que direito os deuses tinham de dizer o que eu podia fazer ou como eu deveria ser? Deveria eu viver uma vida de temor e pavor, com medo de que cada atitude fosse recusada pelos deuses e assim, eu despertaria a fúria divina?
 

Não mais.
 

Aproveitando-me do fato de que Meletis é o lar da filosofia e da matemática, dediquei o restante da minha vida aos estudos, cálculos, astrologia, da ciência e comecei a difundir uma forma nova de saber: razão e lógica. Para tudo deveria haver uma explicação. Um fator concreto que explicasse determinado ocorrido. Uma ação deveria desencadear uma reação. Um conhecimento que validaria as “ações divinas.”


“Por que rezar para os deuses que se alimentam da sua adoração? Dissolva suas ilusões e veja a verdadeira natureza das coisas.”
 

Agora que minha família estava ao lado de Érebo – isso é apenas uma expressão Meletiana – me entreguei a busca pelo conhecimento. E nessa busca incessante, eu me revoltava ao perceber como nós, seres humanos, desperdiçávamos nossas forças e sabedoria nessa devoção ensandecida pelos deuses. Doía-me a alma ao ver artesãos e filósofos usando de seus dotes em prol dos pretensos deuses. Uma cidade, onde até mesmo os tijolos possuem formas geométricas interligadas, demonstrando princípios matemáticos e místicos, devia possuir alguma luz de saber.


Sendo Meletis uma cidade costeira, somos rodeados por rios e vastas pastagens escalonadas. Cultivamos a cevada conhecida por sitra, fonte primária do nosso sustento e dos animais. Pois bem, certa vez houve um período o qual a safra estava difícil. 
 

Uma leva de insetos estava atacando nossos grãos. Uma espécie de inseto pequeno e preto estava atacando os grãos através da infestação dos ovos. Ao que tudo indicava, a fêmea botava os ovos dentro do grão e assim, mesmo que matássemos os insetos, uma grande parte dos grãos continuava comprometida.
 

Não preciso dizer que as orações e as oferendas se multiplicaram por toda a cidade. 
 

Naquela época, eu já havia iniciado meu caminho pela magia – que Meletiano seria eu se não abraçasse nossa mais antiga tradição? Com o conhecimento que adquiri me tornei um formalista. Um mago que estuda o Éter e sua função na magia, mas para alguns o Éter é tido como o domínio de entidades abstratas, como números, conceitos e teorias. Pois bem, percebi que as orações e oferendas se mostravam inúteis diante da praga e se continuasse assim, perderíamos a lavoura inteira.


Estudei aquele inseto peculiar. O batizei de gorgulhos por causa dos constantes ruídos que eles faziam. Realizando a combinação de magia com o pó derivado de uma planta chamada Coffea, instruí os agricultores a espalhar a substância pelas plantas. Em poucos dias os insetos estavam mortos e o povo pode colher novamente.

 

 

 

Mas adivinhem a quem foi atribuído o triunfo dessa praga?

 

 

Carametra, deusa das colheitas. Senhora das estações e mãe protetora das lavouras. As pessoas atribuem os feitos grandiosos aos deuses e esquecem-se da própria capacidade. Esquecem-se da própria grandiosidade que a nós é concedida pelo cosmos.


Com o tempo, consegui aprimorar minha arte de tecer a magia e me tornei um taumaturgo. Ou pelo menos, é assim que gosto de me ver. Não é que eu não seja um bom mago, mas os Meletianos somente consideram alguém como um verdadeiro taumaturgo após este receber uma recompensa ou presságio positivo dos deuses. Darei um exemplo simples. Um mago pode ser considerado um taumaturgo quando Heliode, deus do sol, conceder-lhe uma lança de luz solar, ou quando lhe é concedida uma visão criativa e selvagem de Queranos, deus das tempestades.


Quando isso acontece, os cidadãos tendem a olhar com outros olhos porque esse taumaturgo agora fala “da voz dos deuses para os nossos ouvidos”, um ditado que enfatiza que a pessoa fala a verdade, ou seja, aquele mago possui inspiração e poderes divinos.
 

Quanto a mim, os deuses podem lançar suas visões goela abaixo! Não preciso delas para provar minha capacidade.


O vazio que a falta da minha família trouxe era imensurável. Mas eu encontrava alguma espécie de conforto ao contemplar as estrelas. Ao estudar astrologia comecei a perceber como os corpos celestes podiam prover informações sobre nossa personalidade e outros assuntos relacionados à vida comum. Podemos nos guiar através das estrelas e até “prever” eventos por meio delas. Para o povo comum, essa ação é divinatória, mas não passa de um alinhamento cósmico provido pelo próprio cosmos. Há nada divino nisso. Eu costumava observar as estrelas e procurar por sinais de eventos e cataclismos. Olhar para o céu estrelado me dava à sensação de que eu olhava para Nyx – a terra da noite e lar dos deuses – de certa forma, eu sentia alguma espécie de paz ao examinar as constelações. Eu procurava por alguma constelação que representasse meu filho ou tivesse a forma de minha esposa. Talvez, algum último lapso de crença e impulso de tentar reencontrar minha família de alguma forma.

 


Acho que você já deve ter percebido que esse tipo de ideologia minha não atraía muitos amigos. A maioria das Meletianos me evitava. Eu não era visto com bons olhos pela Polis. Alguns sugeriam que eu devesse ser expulso, outros achavam que eu era um herege e profano. Outros afirmavam que, com a divulgação de minhas “heresias”, isso acabaria atraindo a fúria de Heliode sobre nós. Heliode uma vez destruira a polis chamada Arixmethes, simplesmente por causa de um crime e muitos temiam que meus ensinos chegassem aos ouvidos dos deuses e trouxessem a mesma ruína. Minha fama se espalhou tanto que eu comecei a ser chamado, de forma pejorativa, de Atheos pelos cidadãos.

 


Mas ainda havia alguns que mantiveram sua amizade para comigo. 


Um destes companheiros era Uremides. Um filósofo itinerante e taumartugo que apregoava sua própria escola filosófica. Uremides era um grande amigo, sábio e ponderado em sua sabedoria. Instruía brilhantemente as jovens mentes de Meletis por meio da retórica e da maiêutica. Apesar de ser devoto de Crufix, deus dos horizontes, Uremides possuía sua própria concepção dos deuses. Segundo ele, apesar de os deuses serem imortais, eles eram finitos, pois havia uma espécie de “limite” ou fim. Quando os seres vivos se esquecessem dos deuses e não fizessem mais suas orações, os deuses sucumbiriam. Eles adentrariam ao Oblívio. O Esquecimento.


O que mantinha os deuses vivos éramos nós, seres vivos, que por meio de nossa devoção, crença e fé os mantinham vivos, mas no momento que déssemos as costas a tudo isso, eles deixariam de existir. Assim se matava um deus. Quando a humanidade caminhasse sem necessitar da muleta da crença a terra de Nyx se consumiria e se auto destruiria. Em seus ensinos, ele argumentava que haveria um tempo em que os deuses olhariam para os mortais com temor.
 

Acredito que agora entendem porque nos tornamos amigos.

 

 

Não é raro encontrar tritões por aqui, mas eles não conseguem sobreviver por muito tempo em terra. Alguns trabalham como mirantes e guardas de torre de vigia as margens da cidade, alertando de ataque de krakens, arcontes e outros monstros. Esse ilustre ser eu encontrei durante a minha visita diária aos banhos públicos.


Seu nome era Phorest, um tritão austero, arguto e de poucas palavras. Porém, o mais interessante é que, foi ele que se aproximou de mim. O dia estava quente e decidi ir me refrescar nas termas. Enquanto saboreava meu momento de reflexão e tranquilidade, aquela figura sombria e estranha surgiu a minha frente. Ele permaneceu parado lá, me encarando como se tentasse desvendar algum enigma. Após alguns minutos, quebrei o silêncio e perguntei o que ele desejava.

 

 

A cena seguinte foi deveras estranha. Ele me examinava de forma incrédula. Por final ele disse, “não acredito que seja você”.


“Que não seja eu o que?”
 

“Que seja você o escolhido de Queranos.”
 

“Pelos olhos vermelhos de Mogis! Outro oráculo? Qual é a profecia desta vez? Heliode queimará minha pele até sobrar somente cinzas ou Mogis virá até mim e cortará minha masculinidade fora?”
 

Ele não gostou muito da profanação fazendo uma careta ao ouvir aquelas coisas.
 

“Eu não costumo duvidar da vontade de Queranos, mas dessa vez parece que quem está sendo testado na fé sou eu. As ordens que recebi foram para te levar até as ilhas de Draka para que lá, você encontre a verdade.”


Por um momento, parei e olhei para ele na tentativa de perceber se aquilo era uma piada ou trote. Acreditar na vontade dos deuses já era algo ultrapassado para mim e, certa feita as crianças da rua fingiram estar em transe e disseram que eu seria devorado por um ciclope dizendo que era uma visão de Mogis. Mas quando percebi que ele estava sério, eu comecei a rir histericamente.


“Você vem até mim dizendo que vem em nome de Queranos, e que me levará para Draka. Draka? Uma ilha que raramente é explorada por seres humanos, lar de rumores de ninfas e outros monstros. E o mais hilário é que VOCÊ me levará até essa ilha. Como se eu fosse por livre espontânea vontade.”
 

“Você irá nem que eu tenha que arrastá-lo pelo mar.”
 

A ameaça foi bastante convincente. O encarei outra vez, agora sério, para ver qual seria seu próximo movimento, mas ele somente se limitou a falar outra vez com toda aquela pompa de profeta.


“Todavia, temos até amanhã do meio dia para partir, pois Tassa nos garantirá boa maré e ventos favoráveis. Esperarei por você no porto de Meletis. Não se atrase Atheos.”
 

E assim foi nosso encontro metafísico. Ele saiu das termas e me deixou com meus próprios pensamentos. Mas é claro que eu não acreditei nas baboseiras daquele tritão. Vontade de Queranos? 


Besteira!
 

Mas naquela noite, eu tive um sonho estranho. É sabido que quando os mortais sonham é porque estão “visitando Nyx”, outra tradição de nossa cultura. Do alto de uma falésia eu olhava para o céu estrelado quando, repentinamente, uma estrela caiu no mar. E logo em seguida, outra estrela se movia pelos céus, sendo guiada pela constelação do centauro, se dirigiu do oeste até um ponto do céu – havia um buraco no lugar da estrela que caira – e outra estrela se movimentou, vinda do leste e sendo guiada pelo Barco de Callaphe – uma estrela batizada devido a lenda da marinheira chamada Callaphe, que desafiara Tassa – as estrelas convergem até alcançarem o zênite do céu (exatamente o buraco de onde a primeira estrela caiu) e a luz que irradia delas ilumina a ilha de Draka, abaixo.


Acordei assustado. De fato, parecia que o Universo estava corroborando com a afirmação de Phorest, mas com qual finalidade? Mas um astrônomo tem por função compreender os desígnios dos corpos celestes e, então, resolvi seguir o que as estrelas propunham para mim.


No dia seguinte, chegamos à costa portuária de Meletis.

 

 

E lá estava Phorest.


Por um momento, pensei ter percebi um leve sorriso naquela carranca endurecida por sua rispidez. Mas o minúsculo sorriso desapareceu quando ele percebeu que Uremides estava ao meu lado.
 

“Quem é esse?”
 

“Um amigo que se dispôs a se aventurar conosco.”
 

“Não posso garantir a segurança dele. Minha missão está relacionada somente a você.”
 

“Não creio que ele precise de sua proteção.”
 

Uremides era um poderoso taumaturgo. Ele poderia cuidar de si.


Phorest já havia feito todos os preparativos. Um pequeno barco nos aguardava. Não havia mantimentos, pois as Ilhas Draka não ficavam distantes. Meletis fica no Mar da Sereia, cercado por uma série de pequenas ilhas chamadas Draka. É sabido que foram criadas por Tassa, deusa do mar, que sentiu tristeza quando Korinna, antiga rainha dos tritões, foi morta pelo arpão de um humano. As lágrimas de Tassa caíram no mar, na forma de um arquipélago de ilhas enevoadas.
 

Fosse isso verdade ou não, quem quer que se atreva a enfrentar as Ilhas Draka, quando voltasse ou se voltasse, nunca mais era o mesmo.


Antes de partirmos, Phorest fez uma oferenda ao mar. É uma tradição de todos os que se aventuram pelo domínio de Tassa, pois é dito que concede uma visão das estrelas. Partimos no pequeno barco e Phorest nos acompanhou pelo mar. Uma das vantagens em ser um tritão.
 

Em pouco tempo, avistamos o arquipélago. Aparentemente, as Ilhas Draka nada possuíam de diferente. Na verdade, pareciam mais um monte de terra seca e construções rochosas sem aparente perigo algum. Mas, segundo os rumores, devíamos ficar atentos a qualquer movimento. Alguns diziam que suas cavernas escondiam um portal para Nyx.

 

 


Ancoramos a embarcação e caminhamos pela orla, seguidos por Phorest. Nos deparamos com a entrada para três cavernas e sem pista alguma de qual entrar.


“E agora, para onde vamos?” perguntei para meu guia.


“Não estou muito certo...”
 

“Como assim, você não está muito certo? Você não disse que foi Queranos que te deu ordens?”
 

“Sim, foi ele, mas ele me disse para trazê-lo até a ilha. O resto está nas mãos dos deuses.”
 

Por que todo devoto tem preguiça de pensar e trilhar o próprio caminho? Era sempre mais fácil lançar a culpa sobre uma divindade do que assumir a responsabilidade pelos atos. De qualquer forma, Phorest não tinha ideia de qual entrada seguir, mas por sorte Uremides era mais sagaz que nós dois. Escolhemos qualquer uma das entradas, mas antes que conseguíssemos entrar Uremides deu berro, mandando-nos esperar. Ele começou a analisar as bocas.


“Há algo errado aqui, posso senti-lo no Éter.”
 

Uma fina linha reluzente surgiu entre seus dedos e começou a percorrer o solo, ao redor das entradas. Ele conjurou um feitiço para saber se havia alguma irregularidade no local. A luz prateada desapareceu e ele voltou-se para nós.


“Fenax.”
 

Nada mais justo. Uma armadilha feita pelo deus da trapaça. O que estava diante de nós era uma espécie de encantamento ilusório. Se adentrássemos a entrada errada, quem sabe quais horrores encontraríamos. 


“Ora, ora, não sabia que Queranos compartilhava do senso de humor de Fenax.”
 

Phorest se limitou a dizer que Queranos era um deus imprevisível, assim como as tempestades.
Uremides e eu decidimos realizar um ato para romper o feitiço. Canalizamos o Éter na esperança de desfazer a ilusão e conseguirmos ver qual era o caminho certo.

 

 

O encantamento era poderoso, mas conseguimos desfazê-lo. Mas, para nossa surpresa, quando olhamos novamente para as entradas, nada havia mudado, exceto a sensação. Achávamos que era uma ilusão, mas, na verdade as entradas eram todas verdadeiras a diferença era que agora Phorest sabia qual caminhar trilhar. Ele conseguia sentir a vontade e orientação de Queranos outra vez e, graças a isso, escolhemos a entrada da direita.

 

Adentramos num caminho lúgubre. Mesmo com a tocha que trouxemos, a iluminação era bastante fraca. A escuridão parecia densa, quase palpável. Nosso caminhar era lento, pois mal sabíamos onde estávamos. De repente, até a pouca iluminação nossa não conseguia iluminar mais. A escuridão tornou-se algo vivo e percebemos que aquilo devia estar relacionado aos deuses.


Quando a luz retornou e voltamos a enxergar, o pequeno corredor se transformou em uma sala oval. Era enorme. Estava iluminado por tochas com espaço para até seis minotauros andarem lado a lado aqui. Ao final da câmara havia uma estátua de Heliode, com sua lança Khrusor estendida em direção a nós. A lança parecia emitir luz própria, como se chamasse atenção. Atrás da estátua estava uma entrada que dava continuação para nosso rumo.


Caminhamos em direção à entrada e, ao passarmos pela estátua, acenei para o deus do sol.


“Hey, Heliode há quanto tempo não nos vemos. Você perdeu peso? Sua forma está mais delgada.” 


“Não zombe dos deuses!” Trovejou Phorest.
 

“Você é muito sisudo. O que pode acontecer? A estátua ganhar vida e vir atrás de nós.”
 

Bem, a estátua não ganhou vida e nem nos perseguiu, mas no momento em que terminei de falar, a lança do deus do sol começou a brilhar mais intensamente e um raio de luz se projetou dela. O raio atingiu a outra parede que começou a se abrir rapidamente e, uma enorme bola de pedra surgiu, rolando em nossa direção.
 

“Será que dá tempo de fazer um elogio?”
 

Corremos com todas as nossas forças pela entrada a nossa frente. Atrás, a bola vinha destruindo tudo, até a estátua de Heliode. Adentramos freneticamente pela porta e saímos dentro de um corredor que possuíam algumas elevações nas laterais. 


A bola entrou pela porta arruinando-a.
 

Não havia tempo para conjurar algum feitiço. No final do corredor, a entrada para nosso próximo destino, a parede começou a se fechar lentamente. O tempo estava contra nós. Corremos mais uma vez. Enquanto tentávamos salvar nossa pele, Uremides puxou um pequeno frasco do bolso e o ingeriu. Quando percebi ele estava correndo na nossa frente e, com um salto heroico, ele se lançou em uma das elevações. Ele se deitou e esticou seu braço no momento que passava por baixo, o impulso me ajudou e consegui me lançar sobre o próximo parapeito. Mas não conseguimos fazer o mesmo com nosso colega tritão.


“Corra Phorest, corra!”
 

Ele arqueja enquanto corria.
 

“Corra Phorest, corra!”
 

Enquanto ele corria, suas mãos começaram a brilhar num tom azulado. Ele tentaria conjurar um feitiço ou morreria tentando. Não tinha tempo de ele conseguir atravessar a parede, pois a porta já estava quase selada. Mas mesmo assim ele continuou a corrida, balbuciando alguma coisa.


Assim que ele chegou de frente da parede lacrada, ele se virou para a rocha mortal e juntou as mãos. Num instante, um jorro de água surgiu embaixo dele e o elevou até a altura do teto. A rocha passou por dentro da água e se colidiu contra a parede, destroçando-a e abrindo caminho para nós.

 

 

O jorro se desfez, e ele caiu no chão. Seus olhos estavam envoltos em fúria.
 

“Na próxima vez, guarde seus deboches para quando sairmos daqui.”
 

Continuamos a jornada através da parede destruída, mas percebemos que nosso caminhar estava mais lento agora. Parecia que havia uma melodia no ar. Um som tranquilizante como o barulho leve vindo da brisa do mar. Nossos sentidos começaram a falhar. Uremides caminhava com dificuldade, se apoiando pelas paredes. O herói Talassido também não estava em melhores condições.


Estranhamente, eu não sentia o mesmo cansaço que meus companheiros. Sentia-me, sim, cansado e atraído por aquela distante melodia, porém, sentia como se estivesse sendo atraído para casa. Ouvi um barulho e quando me virei, meus amigos caíram no chão inconscientes. Tentei caminhar até eles, mas as pernas não obedeciam. Comecei a ver borrões na vista. Tons azulados e púrpuros se mesclavam. 


A canção se intensificou.
 

Tentei olhar novamente para tudo ao meu redor quando percebi a fonte de nosso estupor. Havia um artefato no canto da sala. Uma espécie de harpa que tocava sozinha. Isso devia ser alguma melodia sirênica. 

 

 

Procurei me concentrar para conjurar um feitiço de cancelamento, mas foi inútil. Não conseguia racionar direito. A mente estava turva e os sentidos falhavam. Amortecido, eu caí no chão sentindo aquela estranha sensação de retorno ao lar.


Então a escuridão se fez notória e me perdi na noite.
 

Havia um lago diante de mim. O céu estava coberto de estrelas dançantes. Eu ouvia uma voz, estranhamente familiar, que me chamava. Era uma voz feminina que falava cantando. Não sabia de onde via.
 

“O rancor é uma tatuagem que marca por dentro. Por que você deixou se marcar?”
 

Eu entendia do que ela estava falando.
 

“Os deuses que trouxeram essa marca. Eles falharam comigo.”


“Se tu crês que és responsável por teu destino e ações, por que culpas os deuses pela sua falha em proteger tua família?”
 

“Mas eu não pensava assim quando eles levaram minha família. Minha devoção era para os deuses de Theros e essa devoção não foi correspondida.”
 

“A fé nos deuses não invalidava seu poder de decisão. Tenha fé no ideal não ídolo.”    
 

Aquelas palavras doíam. Machucavam minha alma.
 

“Não! Heliode me traiu quando mais precisei dele. Ele devia ter agido em nosso favor.”


“Quem traiu a quem? Aceitaste o bem dos deuses com prazer, porém, não queres aceitar o mal?”
 

Eu não tinha mais palavras para refutar tudo aquilo. Apenas sentia a alma se dilacerando dentro de mim.


“Vem e vê a quem realmente deves culpar por teu infortúnio.”
 

Dirigi-me até a beira do lago e me agachei. A água era límpida e serena, reluzindo com o tom argentado das estrelas.
 

“O que vês?”


“Vejo a mim mesmo.”
 

“Então já vês o culpado.”


A água clara começou a se alternar. E de súbito, cenas do fatídico dia se apareceram. Os gritos, a matança e a dor surgiram como se eu estivesse naquele exato momento. Quando surgiu a cena da morte deles eu gritei, esticando o braço em uma tentativa inútil de salvá-los.
 

“Adriella!”

 

 
Eu caí na água?


Não me recordo. 
 

Não sei onde estava. Não sentia meu corpo. Não enxergava. Ao meu redor a Escuridão surgiu novamente, porém, desta vez havia lacunas nela. Parecia que faltava algo. Aquela escuridão era Nyx, o domínio dos deuses, e havia algo errado. Eu sentia. Os céus se infundiam com Nyx, havia tormento e caos, mas havia um silêncio.
 

Silêncio?
 

Um Silêncio vindouro estava por vir e mudaria tudo em Theros. Os deuses ficariam costurados em Nyx e não mais poderiam intervir no mundo dos mortais.
 

Mas de onde viria esse Silêncio?

 

De repente, a forma de Crufix surgiu. Seria ele a fonte disso? Por que o mais antigo dos deuses tomaria tal atitude?


Nyx se contorcia outra vez.
 

Eu ouvia o som de pisadas na Terra. Alguma coisa de proporções épicas caminhava para assolar o Mundo.
 

Um monstro. Um destruidor de mundo estava a solta e os deuses não sabiam.

 

 

Eu via sua forma bizarra e todo o mal que ele traria.
 

Precisava ser detida, porém, quem o faria?
 

Chorando, eu perguntei a Nyx quem seria escolhido pelos deuses para deter a Grande Abominação.


Uma luz surgiu.
 

Uma estrela?
 

O Sol?
 

Heliode? Sim, o deus do Sol é quem se ergueria para deter o mal.
 

À medida que a pequena luz crescia, ela tomava forma. Não, não era Heliode, mas trazia em sua aura a força do deus do Sol.
 

A silhueta de uma mulher se formava. Ela seria a escolhida do deus do sol.

 


Ela precisa ser encontrada.


Mas por que o patrono dos deuses precisaria de uma campeã?
 

Uma sombra se esgueirava pelo reino de Heliode. 
 

Um usurpador.
 

Quando olhei para os céus novamente, as estrelas caíam na terra. Havia o som de batalhas e uma estrela caiu de Nyx, porém, seu lugar não ficou vago por muito tempo. Outra estrela surgiu, gigante e sedenta, e assumiu o lugar daquela que caiu.
 

Uma catástrofe envolvendo os deuses? Estariam os deuses em perigo?
 

Nyx se contorcia e eu já não conseguia ver nada, mas minha missão estava clara diante de mim. Sim, os deuses falaram comigo outra vez e agora eu compreendia.
 

Houve um clarão e tudo voltou ao que era antes. A luz do sol brilhava e queimava meus olhos quando acordei. Ao meu lado, estava Uremides e Phorest, vivos, mas inconscientes. Eu os acordei. O tempo urgia. Precisávamos partir o quanto antes e retornar a Meletis para falar com Daxos, o maior oráculo de Heliode, e falar sobre aquelas visões.


“Levantem-se amigos, os deuses falaram conosco e temos uma missão agora. Theros corre perigo e não somente isso, mas o próprio panteão. Levantem-se companheiros, pois a luz de Heliode brilha outra vez sobre mim. Partamos logo, antes que...”
 

Eu nunca consegui completar aquela frase.


“Antes que o que? Que os deuses caíam? Para a desgraça de vocês, mortais, isso já está em andamento... As ilhas Draka cumpriram com seu propósito.”
 

Quando nos viramos, a figura de minhas visões estava lá, diante de nós. Um sátiro, com um sorriso diabólico, estava de pé na praia. Nos encarando e observando. Uremides e Phorest perceberam a situação e se ergueram. Phorest empunhava sua lança e Uremides preparava sua magia.
 

Caminhei a frente deles e me dirigi a figura estranha e maligna que se colocava a nossa frente.

 


“É você o Usurpador?”


“Isso não faz diferença, já que todos vocês morrerão aqui mesmo.”
 

“Se você é a ameaça de Theros, então é nosso dever te deter aqui e agora. Em nome dos deuses nós acabaremos com tua ambição!”
 

Pela primeira, vez em muitos anos, eu não me sentia mais só. Pela primeira vez eu podia lutar não somente pelo meu próprio destino, mas pelo o de todos. Pela primeira vez, a vontade dos deuses estava alinhada com a minha.


A noite surgia sobre nós e no céu, uma estrela se extinguia...

 

 

 

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Leandro "Arconte" Dantes (VIP STAFF Arconte)
Leandro conheceu o Magic em 1998 e, desde então, se apaixonou pelo Lore do jogo. Após retornar a jogar em 2008, se interessou por lendas, o que resultou por despertar a paixão pela escrita. Sempre foi mais colecionador do que jogador e sua graduação em Pedagogia pela Ufscar cooperou para que ele aprimorasse e desenvolvesse um estilo próprio. Autor de alguns contos, todos relacionados ao Magic, já traduziu o livro de Invasão e criou sua própria saga com seu personagem, conhecido como Arconte.
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Comentários

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Cliff_Rannie (09/01/2018 23:21:49)

Aguardarei ansioso seu novo conto, esse foi fantastico e digno do enredo.

VIP STAFF Arconte (08/01/2018 12:19:07)

Obrigado pelo elogio Kuung, mas infelizmente não é nada disso. E texto autoral mesmo, então não haverá continuação porque a continua seria a própria história de Theros.

kuung (08/01/2018 11:27:17)

Achei bem massa a história, é um resumão do lote de theros? Haverá continuação?

Tyr (07/01/2018 20:19:55)

Mandou muito bem!!! Ansioso por Nemesis!!!

VIP STAFF Arconte (07/01/2018 18:49:12)

A próxima é Nemesis

VIP STAFF Arconte (07/01/2018 18:32:22)

Não, nao, jovem. E de minha autoria

Regneves (07/01/2018 18:13:08)

Essa historia é oficial da cronologia de theros ?

aziszoo (07/01/2018 17:24:34)

Arconte não se esqueça de invasão e apocalipse! A continuação das máscaras de mercádia